documentação

a mata nacional do bussaco

Autoria: lvaro Santos

Enquadramento histrico

A Mata em apreo, desde 1094 uma devesa da Mitra de Coimbra, foi, pelo bispo-conde D. Joo Manuel, doada - em 11 de Maio de 1628 - congregao dos Carmelitas Descalos para nela fundarem o seu "deserto". Trataram logo depois os frades de construir no centro da mesma o seu Convento. Lanaram a primeira pedra a 7 de Agosto desse ano, e, prosseguindo incansveis na edificao, j a 19 de Maro de 1630 - tendo concludas as principais obras - lhes foi possvel dar inicio vida regular. Para seu completo isolamento, muraram a Mata e reforaram a sua proteco por via de duas Bulas Papais. Simultaneamente, a generosa ajuda de piedosos benfeitores proporcionou os meios necessrios para outras obras de vulto.

Apesar da extino das ordens religiosas masculinas em 1834, a permanncia monstica no Bussaco prolongou-se at finais de 1855, quando restava apenas Fr. Antnio de S. Toms de Aquino.

Em 8 de Junho de 1856, a Mata transita para a Administrao Geral das Matas do Reino. Demonstrava grandes sinais de abandono: muitas rvores depauperadas, ruas obstrudas, a maioria das capelas quase destrudas, grandes silveirais e matos. No final de 1858, iniciaram-se as primeiras plantaes e sementeiras com recurso a espcies exticas provenientes do Jardim Botnico de Coimbra.

Em fins de 1887, a sua rea foi aumentada de 90 para 105 hectares, quinze dos quais lhe foram anexados por expropriao por utilidade pblica de propriedades particulares.

Enquadramento jurdico

Em Dezembro de 1898, a Mata passou a constituir uma "Srie Artstica" sujeita explorabilidade fsica. Este estatuto ainda vigora pela sujeio ao regime florestal total, por fora dos Decretos de 24 Dezembro de 1901 e 1903.

tambm de sublinhar que, no perodo compreendido entre 1886 e 1995, os Servios Florestais executaram obra e deram, dentro do possvel, continuidade srie de melhoramentos at ento realizados.

Desde 1997, esta Mata Nacional est sob a gesto da Direco Regional de Agricultura da Beira Litoral. confinante com o Permetro Florestal da Serra do Bussaco.

Enquadramento geogrfico

Administrativamente, pertence freguesia do Luso, concelho da Mealhada e distrito de Aveiro. A circund-la, existe um muro que ronda os 5 300 metros de extenso e que possui uma altura mdia de cerca de 2,5 metros.

Enquadramento etimolgico e grafias ao longo do tempo

" Tudo so mistrios no Buaco, algum exclamou ! a montanha, a mata, os cedros, a via dolorosa, as ermidas e o mesmo nome do Buaco ! Que quer dizer esta palavra ? " Sampaio, 1850.

Vrias so as verses para explicar a origem do nome Buaco. Mais ou menos poticas ou pueris, haver numa ou noutra alguma fora de verosimilhana ou mesmo verdade.

fama que, em eras remotas, um velho que morava numa dessas aldeias circunvizinhas, l em baixo, deixava amiudadas vezes o povoado para se embrenhar por muitos dias na mata. Quando voltava - com nimo revigorado - e se cruzava com os vizinhos, ao ser interrogado sobre a mata, retorquia em tom grave e respeitoso: " Daquele monte saco bus ".

Esta histria passou de gerao em gerao e com ela foi tomando esta serra o nome das palavras que o ancio repetia e que, invertidas pelo andar dos tempos, deram bus-saco ... bussaco (Simes, 1856; Mattos, 1874; Castro, 1875; Gonalves, 1905).

A Benedictina Lusitana (citada por Sampaio, 1850) deriva o nome Buaco da gruta de Sublaco, em que S. Bento fazia penitncia, conjecturando-se que os monges do grande Mosteiro Bubulense (Vacaria) - a quem primeiramente pertencera esta mata - lhe deram o nome, ou outro semelhante (talvez Subaco - Paiva, 1987), que o tempo converteu em Buaco, em memria do deserto que o seu patriarca com tantas virtudes santificara. Assim o entendeu D. Bernarda Lacerda (1634) que, nas Soledades do Buaco, lhe faz referncia:

En aquellos siglos de oro,
y venturosas edades,
(Qual el de Laco) Sublaco
Solia el monte llamarse .

Antes de D. Bernarda Lacerda ter aventado esta etimologia, Fr. Leo de S. Thomaz, cronista da ordem de S. Bento, refere-a nas Constitutiones Monachorum Nigrorum Ordinis S. P. Benedicti Regnorum Portugaliae (Coimbra, 1629), citadas por Castro (1875). A se diz nos prolegmenos, tratando-se do mosteiro Bubulense ou da Vacaria:

 

" Fuit autem aedificatio praedicti coenobii sub titulo Salvatoris annis quatuor post prima fundamenta Lurbani (proindeque duobus ante obitum S. P. Benedicti) quingentesimo scilicet quadragesimo primo in loco qui Vacaria dicitur tribus leucis a Conimbrica dists versus Aquilonem prope viam Regiam, quae ad Portucallensem urbem tendit ad radices montis Bussaco, nunc vulgo, Sublaco, olim forsitan propter Monachos, qui a Sublaco originem ducebant nuncupatam ".

 

Refere uma fantasiosa tradio que, em eras remotas, um escravo foragido escolhera para guarida um cmodo abrigo formado por imensos rochedos sobrepostos - a Cova ou Gruta do Negro - situados na parte posterior da Ermida do Sepulcro, isto , abaixo do Calvrio. Transportando consigo um saco, era dali que partiam as suas sortidas nocturnas para se apoderar do alheio e praticar outros latrocnios e insultos nas aldeias circunvizinhas. Diz-se que quele abrigo chamavam as gentes atemorizadas Cova do Boal (ou do Bual). nesta palavra Boal que, com pequena corrupo, se tem querido encontrar a gnese do topnimo Bussaco (hoje Buaco). De Bual mais Saco resultara Bussaco, por haplologia: Bual-saco > Bua-saco > Bu-saco > Bussaco.

Esta etimologia no passa duma pura inveno romntica, pois, como sabido, a vinda dos primeiros negros para a Europa sucedeu no sculo XV, quando o nome Buaco (na grafia da poca) dado serra j se encontrava em documentos do sculo X (doao de Gondelim ao mosteiro de Lorvo, em 919), em latim brbaro.

Ao longo dos tempos, de que h memria, a palavra teve vrias grafias: "Buzaco", Buzacco", "Buzzako", "Buzacho", "Bussaco" e "Buaco".
Das etimologias j referidas, apenas uma parece revestir-se de alguma credibilidade. O termo "Sublaco", atravs de metteses e sncope, fceis e correntes numa poca de lngua predominantemente oral, e anagramtica, teria feito o seguinte trnsito: Sublaco > Blusaco > Busaco > Buzaco > Bussaco.

Deixmos para ltima, intencionalmente, outra que se nos afigura bastante plausvel e digna de no menos crdito: a que vai buscar a origem a " bosque sagrado " (Boscum sacrum).

Tendo em conta os habituais fenmenos que, no medievalismo, ocorreram noutras palavras ou segmentos verbais, conjecturamos que ter havido a persistncia natural das tnicas, sncope do r e posterior aglutinao: Boscum sacrum > Boscu sacru > Bos sacru > Bos sacu > Bossaco e Bussaco, por reforo do timbre voclico.

Oportuno se torna referir aqui que remonta mais ancestral antiguidade, de que h notcia, o carcter sagrado dos bosques: Jpiter habitava o Olimpo; os Latinos, inicialmente, faziam dos bosques templo sagrado; na Glia, os drudas tinham igual procedimento.

A ser assim, a correcta grafia aponta para Bussaco.

Texto gentilmente autorizado pelo editor e extrado de Caracterizao da Mata Nacional do Buaco , pgs. 16-18, de SANTOS, lvaro M. M., Ed. do Autor - Anadia, 1993.

Intercomunicao do muro da Mata com o exterior 

Porta da Rainha - Aberta em 1693 para dar passagem Rainha de Inglaterra, D Catarina de Bragana. De imediato, foi entaipada por no se ter concretizado a referida visita (colidia com o preceituado na Bula Papal de Gregrio XV, datada de 23 de Julho de 1622). Novamente aberta em Agosto de 1704, por ela passou D. Pedro II, acompanhado pelo Arquiduque da ustria. Posteriormente, foi encerrada at Maio de 1834. Por ela tambm passou, em Abril de 1852, D Maria II e seu marido D. Fernando, com seus filhos D. Pedro e D. Lus. Em 1872, foi completamente restaurada.

Porta de Sula - Deve a sua designao proximidade da aldeia de Sula. Remonta aos meados do sc. XVII. Foi alargada e restaurada por volta de 1872. Actualmente, a circulao faz-se apenas por via pedonal.

Portas de Coimbra - Fundadas em 1630 (eram a antiga Portaria da Mata), foram remodeladas ainda pelos Carmelitas em 1831 e sujeitas a algumas ligeiras reparaes em 1866. O seu nome explica-se por estarem voltadas para aquela cidade. Circulao pedonal.

Porta da Serra ou da Cruz Alta - Foi aberta para dar passagem s tropas anglo-lusas por ocasio da batalha em 1810. Acede Cruz Alta.

Porta de Serpa - Construda por volta de 1865-66. Deve o seu nome ao Prof. Catedrtico Manuel de Serpa Machado que, devido sua influncia e diligncias, fez com que, em 1838, o Convento e Mata do Bussaco fossem retirados da lista dos bens nacionais anunciados para venda. Em 1887, com a anexao de 15 hectares antiga Cerca dos Carmelitas, foi pouco depois transferida para o seu actual local.

Porta do Luso - Construda, provavelmente, em 1890. Em frente, para l da estrada Luso-Penacova, situa-se o Chal de Emdio Navarro. A circulao faz-se apenas por via pedonal.

Porta das Ameias - Assim designada porque lhe servem de remate. Com razovel grau de certeza, foi construda no perodo compreendido entre 1888 e 1900. Foi recentemente reparada em 2001. a mais utilizada pela rede rodoviria.

Porta das Lapas - Tudo aponta para que tenha sido construda entre 1900 e 1920. H, pelo menos, uma dcada que est encerrada ao pblico por se ter convertido em local de encontro de inmeros toxicodependentes. Situada beira da estrada Luso-Penacova.

De registar ainda a existncia de duas outras alternativas de circulao pedonal: a Porta dos Degraus, logo seguida da escadaria, que a mais directa ao centro do Luso e a Porta de S. Joo, a mais recente abertura no muro, tambm acede ao Luso.

Ermidas (De habitao ou de Penitncia)

S.ta Teresa - Fundada por Bento Pereira de Melo, Deo da S de Coimbra, Prior-Mor da Ordem de Avis. Foi demolida, em 1885, para dar lugar ao Chal com idntico nome.

St Elias - Fundada por Antnio Pinto Bto, morador em gueda.

S. Miguel - Fundada por Antnio Vaz Preto, Prior de Treixedo.

N. Sr. da Conceio - Fundada por D. Rodrigo de Melo, irmo do Marqus de Ferreira, filho do 3 Conde de Tentgal e da Condessa de Tentgal, D. Mariana de Castro. Em 1866, foi reparada pelo Conselheiro Ernesto de Faria.

S. Jos - Fundada em 1644 pelo Reitor (da Universidade) Manuel de Saldanha, Bispo de Viseu. Iniciada em 1643 e concluda em 1644.

Sacramento - Fundada por D. Mariana de Cardenas, Duquesa de Torres Novas. Em runas, por ter sido intencionalmente arrasada.

N. Sr. da Assuno - Fundada por D. Diogo Lopes de Sousa, Conde de Miranda. Localiza-se um pouco acima da Fonte Fria.

Calvrio - Fundada pelo Bispo-Conde D. Joo Manuel. Construda em 1694. Tem forma sextavada.

Sepulcro - Fundada em 1646 pelo Reitor Manuel de Saldanha. No sc. XVIII, temporariamente, passou a ser propriedade de Ascncio de Paiva Pinto. Foi restaurada em 1863.

S. Joo Baptista ou do Deserto - Fundada em 1650 pelo Reitor Manuel de Saldanha.

St Anto - Fundada pelo Reitor Manuel de Saldanha em meados do sc. XVII (1643-46). Tem forma cilndrica.

 

Capelas (Devocionais)

As capelas devocionais so 4: S. Joo da Cruz, S. Pedro, St Maria Madalena e St Anto.

A Via Sacra composta de vinte passos, assinalados por pequenas capelas. A saber:

  1. Horto
  2. Priso
  3. Cedron
  4. Ans
  5. Caifs
  6. Herodes
  7. Pretrio
  8. Cruz s Costas
  9. Primeira Queda
  10. Encontro da Virgem
  11. Cireneu
  12. Vernica
  13. Segunda Queda
  14. Filhas de Jerusalm
  15. Terceira Queda
  16. Cristo despojado
  17. Crucificao
  18. Cristo descido da Cruz
  19. Calvrio (j referida nos Ermitrios)
  20. Sepulcro
Fontes

Remontam era carmelitana, tal a abundncia das guas existentes, as seguintes:

St Elias - Foi obra do Bispo-Conde D. Joo Manuel. A gua que dela brota reputada de frrea. datada de 1700. Todavia, no sc. XIX (em 1854), a sua gua foi desviada e construiu-se a actual num local um pouco abaixo daquele onde primeiramente havia sido implantada.

St Teresa - Iniciada a reedificao pelos frades, por volta de 1832. A extino da Ordem em 1834 e as vicissitudes poca levaram a que a obra s fosse concluda durante o terceiro quartel do sc. XIX.

S. Silvestre - Foi objecto de reformulao esttica em 1886-87 que inclui uma Cascata, com os seus pequenos lagos, as rochas e as grutas simuladas.

Carregal - Depois de sofrer uma primeira interveno reconstrutiva em 1866, foi totalmente remodelada em 1883.

Samaritana - Deve-se iniciativa do Reitor Manuel de Saldanha, em meados do sc. XVII. Est j seca h mais de um sculo e integra-se numa espcie de capela que perdeu algum do seu carcter sacro por ter sido reformada em 1878.

Fria - Deve a sua designao reduzida temperatura das suas guas. Reconstruda em 1866, tornou-se alvo de duras crticas. Foi, por isso, reformada em 1881. As suas guas alimentam um pequeno lago artificial, construdo em 1859-60 e integralmente restaurado em 2000.

O Palace Hotel e construções anexas

A iniciativa da construo deste sumptuoso palacete deve-se ao Conselheiro Emdio Navarro, na poca Ministro das Obras Pblicas, por despacho de 18 de Julho de 1888.

As obras comearam no ms de Novembro imediato, cabendo o projecto a Luigi Manini, arquitecto e cengrafo italiano. A direco das construes ficou a cargo de Ernesto Augusto de Lacerda, na poca Administrador da Mata do Bussaco. Outro despacho ministerial, de 30 de Junho de 1891, ordenou a entrega das construes Direco das Obras Pblicas de Aveiro, que lhe deu pequeno desenvolvimento. As obras foram, por isso, suspensas ainda nesse mesmo ano. Em 28 de Julho de 1894 foram outra vez autorizadas e novamente a cargo de Ernesto de Lacerda. Deram-se por concludas nos finais de 1906.

Trata-se de um monumento em estilo neo-manuelino, com algumas reminiscncias da renascena crist. Inicialmente estava destinado s vilegiaturas da famlia real (D. Carlos e D. Amlia), mas que, desde 12 de Novembro de 1907 at hoje, se transformou em hotel.

Anexas ao edifcio principal destacam-se quatro outras construes: a Casa Romnica ou dos Arcos, a Casa das Pedrinhas ou dos Embrechados, a Casa dos Cedros e a Casa dos Brases.

A primeira, da autoria de Manini, foi erguida em simultaneidade com o Hotel. A segunda segue a tradio herdada das edificaes carmelitanas. A terceira, da autoria do arquitecto Nicola Bigaglia, iniciou-se na viragem do sculo e estava, em 1902, em fase de acabamento. A ltima, da autoria do arquitecto Manuel Joaquim Norte Jnior, iniciou-se em finais de 1905 e estava concluda em 1910.

A competncia da autorga do contrato de explorao do Palace Hotel do Bussaco por parte do Estado na pessoa dos Servios Florestais, desde 1964, passou para a jurisdio da Direco Geral do Turismo.

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Criado em: 2003-01-29 / Actualizado em: