documentação

história do bacalhau e outras histórias

De alguma maneira, a histria do "fiel amigo" acha-se estranhamente ligada aos lusos anais, confrontados quer a nvel nacional, quer, mais ainda, ao nivel da nossa regio. Na verdade a presena do bacalhau na dieta dos nossos maiores, ricos, pobres ou remediados, presume-se anterior fundao da nacionalidade, antes mesmo da constituio do Condado Portucalense, quem sabe se, de um modo mais substantivo, a partir da regio que nos viu nascer, ao tempo em que a linha de costa corria profundamente a nascente, acompanhando o bordo da Meseta Ibrica, que em boa parte quase se confunde com o traado ferrovirio da Linha do Norte.

Nesses idos, o perfil litorneo, consoante se infere do Portulano de Petrus Visconti, o mais antigo documento conhecido, datado de 1318, posto a recato em Veneza nos escaninhos do museu Courrier, era diferente do actual. A fazer f do registo, que reproduz com algum rigor a presente configurao costeira que segue da foz do Guadiana at ao Cabo Mondego, no deixa da por diante, at alturas de Espinho, de mostrar alterao significativa: a laguna estava por nascer, muito embora se encontrassem j em franca actividade as foras que acabariam por model-la. Em seu lugar espraiava-se, ao longo de mais de uma centena de quilmetros, um golfo enorme aberto ao mar-oceano, cujo contorno corria a Esmoriz, infletindo-se por Cabanes, ilharga da cidade vareira, beijando as arribas de Vlega, Avanca, Estarreja, os altos de Salreu, Canelas, Fermel e termo de Angeja e, para alm do Vouga, os de Aveiro at Gndara, para ir morrer s abas da Serra da Senhora da Boa-Viagem. (Fig. 1)

Fig.1 - Carta-Portulano de Petrus Visconti

, qui, seguro supor-se que este golfo fosse de baixos fundos, guas mansas e dispor de bons varadouros, susceptivel portanto de, no arco do tempo, assegurar abrigo franco e confortvel aliengena navegao de cabotagem, no s oriunda das guas clidas do Mediterrneo - fencia, grega, romana, cartagnesa ou berbere - como tambm dos homens vindos do frio, os Normandos (literalmente "nor + man" ou homens do Norte) de cepa dinamarqueses ou raz escandinava, os Viquingues (de "Vik + Ing") ou guerreiros do mar.

Espreitando bem, todos esses povos por aqui deixaram esculpidas marcas da sua passagem, quer nos carcteres tnicos: perfil helnico e olhos azulneos, por um lado, ou nas peles sardentas e ruivos cabelos, por outro, quer no prprio tipo das embarcaes: o "rabelo" do Douro ou o "moliceiro" da nossa ria, as quais se uns sustentam serem reminiscncias de Sdon ou de Tiro, outros, pelo contrrio, querem ver nelas recordaes das gentes do Norte, as quais, na verdade, rivalizavam com os Fenicios nos meandros da construo naval, sabendo, como ningum, adaptar as barcas ao fim a que se destinavam, sobretudo no domnio do pequeno calado.

Mas deixemos por agora as arribaes de acaso dos forneos mediterrnicos e observemos o passado das estranhas gentes das plagas frias onde nasce e cresce o "fiel amigo", as quais, inicialmente atradas pela prtica do corso ou mais tarde - logo que o mnus pirata deixou de ser apetente, por pouco rendiveis as razias e no haver j que pilhar ou os aborgenes Anglos, Gauleses, Frisios ou Irlandos terem vindo, entretanto, a organizar as suas defesas - se volveram mercadores das costas da Hispnia at ao litoral do Mar Negro.

Historicamente, a idade de ouro destes reis do mar situa-se entre o declinar do sculo VIII e meados do seguinte, ainda que seja no IX, no decurso das grandes invases e conquistas, que atinja o fastgio, seguido de relativa acalmia, que vai, prolongar-se at ao terceiro quartel do sculo X, ao longo do qual se assiste sua instalao pacfica nos pases litorneos do Mar do Norte ou at na prpria Rssia, concretamente em Kiev (de passagem se diga mesmo que Rssia - h quem o sustente - seria o timo de Rurik, chefe Viquingue da familia Rus). Todavia, a saudade do mar possuia-os e so mais trs dcadas de renovada turbulncia durante as quais chegaram a apoiar as intruzes com frotas de centenas de barinis.

Enquanto dados flibusta, os Viquingues navegavam de ordinrio bordejando a costa, quando era fagueira a esperana de pilhagem, varando nas baas ou enseadas, junto s calhetas ou embocaduras dos esturios, cujos braos constituiam outros tantos tentculos para roubar o que podiam, enquanto podiam e logo se porem ao fresco. Nestas condies no admira que as condies fisicas da pr-laguna oferecessem facilidades acrescidas s aces de rapina ou, uma vez esgotado o filo, s pacficas actividades mercantis de trocas das bretanhas e estamenhas acamadas de mistura com artefactos e manufacturas avulsas e bens alimentares, como o arenque fumado e o bacalhau seco e salgado, pelos vinhos das colinas da Bairrada que acalentam o corpo e alegram a alma, os citrinos que excomungam os escorbutos, o pez do amanho dos barinis e, mais ainda, o sal fino da pr-laguna, de que to carentes eram para tempero e resguardo das viandas ou volver apetentes as raes dos armentos por modo a torn-los rolios e luzidios.

O sal, certo, tambm o havia, por exemplo, nas marinhas da Flandres, mas sobre no ser famosa a qualidade, bem longe do jaez do de Aveiro, e mais morosa e onerosa a extraco face s geralmente inadequadas condies climatricas, por um lado. Outrossim, o belicismo dos senhores da guerra medievos tambm no propiciava as trocas mercantis.

No obstante, so escassos e incertos os registos posteriores de intercmbio com os Nrdicos, mas sabe-se, por exemplo, que por volta de 1433, h noticia da alfndega inglesa cobrar direitos de aduana sobre os vinhos portugueses e que, por essa altura, a de Aveiro os cobrava sobre o bacalhau importado. Mais tarde, em 1776, os livros registam a compra de partidas de sal do salgado de Aveiro por Ingleses, Holandeses, Suecos, Alemes e outras nrdicas gentes encasuladas na ento vila de Aveiro, no bairro de Alboi, cujo timo seria, assevera-se, "Albion" ou seja o nome potico da nossa (velha e nem sempre) aliada.

Indiscutivelmente, o sal representava ao tempo um bem invejvel servindo inclusiv de moeda, tal como viria a acontecer posteriormente na Gronelndia com o bacalhau. A partir dele era estabelecido o salrio do servo da gleba e antes do Imprio distribuam-se raes de sal aos oficiais e soldados das legies e s mais tarde este "salarium" foi substituido por um subsidio em dinheiro precisamente para compra de sal. Mas, para alm de dar sabor s comidas e conservar as vitualhas, ao sal era atribudo tambm a virtude da preservao ou da cura das mais graves doenas.

Nestes termos, no surpreende que fosse objecto de monoplio na maioria dos pases, por parte dos senhores do mando. Assim sucedeu entre os Romanos desde os tempos mais antigos, em que uma minoria corporatizada em estado, reservava a propriedade das salinas, arrendando-as a particulares, dispondo delas em suma a seu talante.

dos livros, por exemplo, que o nosso rei Conquistador mandava entregar o dizimo das salinas de Esposende aos religiosos do convento de Nossa Senhora da Atalaia, no apenas para acudir ao governo do falanstrio mas tambm com o objectivo de dar apoio - acompanhando a retirada dos Berberes s bases do norte de frica - ao fomento de novas companhas de pesca.

Mais cerca de ns, o convento de Nossa Senhora da Anunciao de Arouca, senhor das terras de Santa Maria, que se estendiam at ao Vouga, englobava elevado nmero de salinas ou "feitorias de sal", (designao que ento lhes era dada na regio de Aveiro). Por exemplo, regista-se no testamento da Condessa D. Mumadona Dias (clebre e poderosa dama do sculo X, tia do rei Ramiro II, de Leo, latifundiria de dominios da Galiza at do Vouga) relativamente aos bens doados ao cenbio por sua sobrinha Dona Flmula, a Dona Chama, moradora que foi ao termo de Mirandela, na terra ainda hoje chamada de Torre de D. Chama) salinas em "Alavarium". (Para muitos, o verdadeiro timo de Aveiro, as quais, presumivelmente, se situariam ou no bairro de S, ou no longe, na baixada de Cojo).

Porm, no se queda por aqui as ddivas regalengas. Afonso III, em 1257, faz merc por seu turno s freiras do convento de Arouca, na pessoa da prioresa D. Maior Martins, "das vilas de Avanca e de Antu" e, implicitamente, das marinhas por l implantadas, nomeadamente em Salreu, disposta ao correr do rio e cujo nome h quem sustente porvir de "Sal Rgio". Alis, notcia da doao em apreo vamos encontra-la na carta de povoao dirigida pela abadessa aos foreiros do mosteiro, em 8 de Dezembro de 1274 e, posteriormente, a 20 de Novembro de 1684, no livro de registos da Cmara Municipal de Estarreja.

Temos, todavia, por ocioso continuar a enumerao de outros lugares de vincada aptido saliccola. Feitorias de sal havia-as um pouco por todo o lado: remota memria situa-as, no periodo pr-lagunar, em Alquerubim de Albergaria ou, mais recente informao, d-as no Bunheiro da Murtosa, quando a orla do golfo circundava pela Boca-da-Marinha, cerca do lugar do Facho, onde em tempos recuados existiu um luzeiro a balizar a entrada da barra de ento.

Porm, tempo de terminar o exrdio e tempo de avanar com a narrao da forma como o "fiel amigo" - que s erraticamente circunda a costa - se instalou entre ns com armas e bagagens para ficar, a ponto de tornar os portugueses temerrios pescadores do festejado gadidio e seus infatigveis gastrnomos em quaisquer umas das mil maneiras, por ns inventadas, de o transformar num pitu de primeira.

Encerrado, pois, o prembulo, volvamo-nos ento aos prolegmenos dessa dupla circunstncia e forma como entronca na Histria geral do reino de ento. Anteriormente entrada do bacalhau na dieta alimentar dos nossos antepassados, magro era o passadio das gentes ribeirinhas da franja ocidental da Peninsula, as quais, mau-grado seu, na luta pela sobrevivncia prpria e do seu cl - alfa e omega do reino animal - haviam de se contentar (passe o eufemismo...) com o minguado grangeio da delgada lingua de terra arvel espartilhada entre o medonho mar e os contrafortes brutais da Meseta, ou, por certo, da faina da pesca fluvial ou costeira, e criao de algum gado de aougue ou, da caa pelas quebradas dos montes.

A partir das trocas viquingues, nasce e progride o interesse dos ncolas pelo bacalhau, cedo lhes germinando a ideia de sacudir a dependncia do acaso das arribaes dos senhores dos mares de outrora e ir colher o peixe em sede prpria, s plagas frias onde nasce e engorda.

No tarda da, rezam as crnicas de antanho, que por 1303, reinava D. Pedro e a laguna permanecia ainda adormecida, os pescadores firmassem corporativamente, atravs de um intermedirio chamado de Afonso Martins, mais conhecido por o "Alho", com Duarte III de Inglaterra, convnio atinente a facultar-lhes, por meia centuria, a captura de bacalhau nas costas do reino. Foi assim, sublinhe-se, que a pesca longinqua ensaiou entre ns os seus primeiros passos e que mais tarde, seria do seio dos mareantes - que no raro viriam a ser nobilitados e cumulados de honrarias e de privilgios, - sairiam os marinheiros das Descobertas. Encurralados por Castela e moirama, estava escrito que o nosso destino seria o mar.

Cedo comea, pois, a tomar forma a ideia de nos fazermos ao mar tenebroso, medida, como j se anotou, do regresso dos mouros s origens. E de certo modo, comea com a plantao do Pinhal do Rei, em Leiria, destinado no s a fixar as dunas do litoral, ento designado de estremenho, mas tambm a fornecer matria prima para, no tempo do Lavrador, e, no de D. Fernando, a aprivisionar os estaleiros de construo naval da Pederneira, hoje Nazar, cujos pescadores eram isentos de pagamento das dcimas "por corpos e aduas porque serviam a cada um por dia nas nossas armadas". Ao vizinho porto de Paredes - de consideravel movimento at ao reinado de D. Dinis - foi pelo monarca concedido, em 1282, entre outras regalias, a outorga da chamada carta-de-povoao aos povoadores - na altura uma trintena - desde que senhores fossem, pelo menos, de seis caravelas.

Outrossim, os rgios sucessores, designadamente Afonso V e o Prncipe Perfeito, D. Manuel, D. Joo III e o Desejado - no obstante o seu curto trnsito neste mundo, - continuam a dispensar s actividades ligadas ao mar, quer no mbito das armadas das Descobertas e Conquistas, quer no das frotas do comrcio e das pescas - a mais desvelada proteco.

Enfim: "alea jacta est"!. Com a queda de Ceuta - chave do Mediterrneo tanto para o reino mouro de Granada como para base dos piratas muulmanos, que, no raramente, maneira da boa maneira viquingue, atacavam a navegao e as costas da Lusitnia, (da o adgio de "anda mouro na costa"...) - a 21 de Agosto do ano 1415, efemride que marca verdadeiramente o comeo da Renascena, Afonso V faz soar o tiro da largada para a espantosa aventura dos Descobrimentos. Da por diante para a frente o caminho: mais alm, sempre mais alm. Porm, sob a gide de Henrique, o Navegador, que, uma vez quebrado o cerco de Castela e do Islo, por um lado, e, por outro, o do mar sem fim, que a gesta da nossa expanso se consolida.

Instalado em Sagres com a sua Casa, o Infante rodeado de gente entendida nos arcanos da oceanografia: cosmgrafos, e gegrafos, cartgrafos ou simples mareantes com traquejo dos plagos envolventes, votados ao estudo do acervo de mapas e cartas - portulano, existentes e das que, em crescendo, iam sendo elaboradas, e das informaes que os nossos agentes conseguiam recolher um pouco por toda a parte, bem como do aperfeioamento dos instrumentos nuticos em uso, quando no criao de novas ferramentas atinentes navegao cosmogrfica - assume legtimamente o papel de coordenador-geral da abertura do Mundo ao mundo das gentes.

Entretanto, cresciam em nmero e grimpavam em amplitude as viagens dos Portugueses atravs dos misteriosos mares Africanos ou pelo caminho incerto do mar-oceano, recorrendo prioritariamente nutica astronmica, isto , lanando mo do quadrante e do astrolbio para medir as estrelas: de dia, o Sol; noite, o Cruzeiro ou a Estrela Polar. Uma a uma, vo emergindo dos sete mares as costas e as ilhas, marcos da odisseia lusada, balisas dos novos caminhos que levam descoberta do mundo.

Ora, entre as cartas nuticas de ento - todas de um modo geral, traadas a partir de elementos colhidos em Portugal - surge em 1424, a carta arquivada num museu londrino, gizada por um tal Zuane Pizzigano, cartgrafo italiano ao servio de Portugal, ao que parece nado e criado em Veneza, uma que com exactido reproduzia no Atlntico, a noroeste dos Aores um grupo de quatro ilhas com nomes de raz portuguesa, denominadas Saya, Satanazes, Ymena e Antlia que claramente vo concidir com a Terra Nova e Nova Esccia de um lado e Avalon e, presumivelmente, a Ilha do Prncipe Eduardo, por outro. (Fig. 2)

Fig.2
Carta Nutica de Pizzigano in “As verdadeiras Antilhas Terra Nova e Nova Esccia”
Dr. manuel Luciano da Silva - Bristol, Estados Unidos, Janeiro 87.

A carta no tem indicao das latitudes, j que na altura em que as ilhas foram achadas ainda este expediente fundamental de orientao, tanto nutica, como terrestre ou area estava no bero ou, quanto muito ensaiava os seus primeiros passos. De resto, no se sabe dos idos, porventura longnquos, em que foi encontrado o arquiplago.

Todavia, estudos posteriores permitem de facto situar o arquiplago entre os 35 e os 45 de latitude norte ao passo que as Antilhas "descobertas" por Colombo se achavam no Mar das Carabas, entre os 12 e 24. A confuso de Colombo que, por ser portugus e ligado a gente grada do mar, conhecia certamente de sobra a carta em apreo, f-lo baptizar as ilhas encontradas, de Antilhas, levado acaso pela circunstncia de na carta de Pizzigano ser a mais saliente e fronteira. Enfim um erro "menor" de 1750 lguas!...

A carta nutica em apreo marca para ns indiscutivelmente, a chegada dos Portugueses ao continente que se chama hoje de Americano antes de Cristvo Colombo ou Amrico Vespcio terem visto a luz do dia, o primeiro em 1451 e o segundo trs anos depois, o qual, ainda por cima, d nome ao continente!...

Mas tambm antes de Colombo ter pisado terras americanas j por l peregrinaram outros, impossivel saber-se quantas luas antes da compilao, por Pizzigano, da carta nutica de 1424 a qual marca o encontro dos portugueses com a Terra Nova dos Bacalhaus. O que se sabe que a partir de 1419 os contactos com o arquipelago da Madeira passam a frequentes e regulares e as ilhas comeam a ser povoadas por volta de 1425, sendo capito do Funchal Joo Gonalves Zarco, do Machico Tristo Vaz Teixeira e de Porto Santo Bartolomeu Perestrelo, de modo a constituir a primeira base oceanogrfica portuguesa. Quanto ao arquiplago dos Aores, cujas ilhas orientais foram presumivelmente descobertas, em 1427, pelo piloto algarvio Diogo de Silves e as ocidentais das Flores e do Corvo por Diogo de Teive, quando da primeira das duas expedies que efectuou a guas americanas, de onde trouxe a convico da existncia da Terra Nova. Os Aores passam assim a ser a segunda das nossas bases no Atlntico.

O mundo abrira-se, no s para ns, Portugueses, como para todos os europeus, e no s, no tardando a organizar-se conjuntas expedies, primeiro com os ingleses, embora de ignotos resultados (tal como o de duas misteriosas viagens feitas pelos portugueses em 1493), depois com italianos, bretes e outros. Mas foi a famlia dos Corte-Reais, j estabelecida nos Aores, talvez a que maiores sacrificios fez para levar a cabo novos descobrimentos na costa da Amrica setentrional decorrendo dessas viagens importante circunstncia econmica para os portugueses: a de passarem definitivamente a incorporar o bacalhau na sua alimentao, a ponto de D. Manuel fixar j, a partir de 1506, imposto sobre a pesca na Terra Nova. exactamente por esta altura que se assiste celebrao de um convnio entre D. Afonso V - pai da "excelente infanta e singular princesa" que foi a nossa Santa Joana - e Cristiano I da Dinamarca, no sentido de marinheiro de ambos os pases procederem ao reconhecimento da lendria passagem do Noroeste, l para os confins das tundras geladas do norte do Canad.

Compreende-se que para Cristiano da Dinamarca, para alm da proclamada abordagem da passagem do Noroeste, a expedio revestia-se do maior interesse por ser a melhor forma dos seus capites, mais concretamente, os almirantes Pining e Pothorst e piloto Skolvus (que alguns querem que seja portugus e o seu verdadeiro nome Joo Costa Vaz) presentes a bordo, se familiarizarem com a nossa cincia nutica. Mas, para que interessava a passagem do Noroeste, a Joo Vaz Corte-Real, e Alvaro Martins Homem igualmente presentes a bordo, e ao nosso rei Afonso? Na verdade aos nossos argonautas o que, porventura, lhes interessava era completar pelo norte o reconhecimento da costa setentrional da Amrica e potencializar a base da ilha Terceira, aproveitando a estratgia posio dos Aores para dar apoio navegao atlntica, dado que os navios vindos de frica, do Brasil e das Amricas Central e do Norte, terem de arribar ao arquiplago, no s para aproveitar dos ventos favorveis mas tambm para se reabastecerem. O que facto que, uma vez regressados a Portugal, foram nomeados ambos por D. Joo II, em 1446, para a gerir, respectivamente, as capitanias de Angra e da Praia.

Tem-se, portanto, que o propsito de desvendar a passagem do Noroeste foi simples pretexto para que gente estranha, nomeadamente a de Castela, que nos rondava a porta, no atinasse com o esquema que animava os portugueses. Na verdade, sabe-se apenas que a frota teria zarpado de Reikjavik, na Islndia e, depois de aportar a Gronelndia - bem conhecida, alis, dos dinamarqueses desde Erik, o Vermelho, que, explorando a costa leste, lanou as bases de um colonato, mais tarde continuado pelo filho Leif-rikson - abandonou o rumo do noroeste e fez-se ao sul ao encontro da terra, logo crismada de Verde - mais tarde dos Bacalhaus, depois Terra Nova dos Corte-Reais e, por fim, simplesmente de Terra Nova.

O relato da expedio foi feita por Sophus Larsen, quando regista inequivocamente o novo encontro dos portugueses com o norte da Amrica na regio da Terra Nova e Nova Esccia passado mais de meio sculo de l terem aproado os nautas que estiveram na origem da carta natica desenhado por Pizzigano, facto, alis, confirmado na inscrio contida num globo terrqueo encontrado na cidade alem de Zerbst, no longe de Friburgo e do Reno superior, pelo professor W. Ruge e executado em 1537 pelo mdico e matemtico Gemma Frisius de colaborao com o seu condiscpulo e clebre gegrafo, e mdico tambm, Gerhard Kremer ou, na forma alatinada por que conhecido, Gerardo Mercator. Com efeito, a meio do Estreito Polar, o globo em apreo registava a legenda "Fretum trium fratrum, per quod Lusitani ad Orientem & ad Indus & ad Moluccos navigare conati sunt" e mais ao norte da representao do Estreito - que em posteriores cartas geogrficas designado simplesmente por "Fretum Anian" - e a Oeste de numerosos nomes de raz lusada, colocados por altura da Gronelndia, depara-se com a inscrio: "Quij populi ad quod Ioannes Scoluus danus peruenit circa annum 1476", isto perto de duas dcadas antes de Colom sonhar alcanar as Antilhas. Por outro lado, Mercator - que foi grande admirador da cultura matemtica do nosso Pedro Nunes, o descobridor, entre outras coisas, do nnio - no tem o minimo rebuo em assinalar que Joo Vaz e companheiros descobriram a Amrica vinte anos antes de Colom a ter encontrado e mais de cinquenta anos decorridos de outros mareantes lusos, antes de 1424, terem cometido idntica proeza.

possivel que no fosse primacial o propsito de Afonso v propor a Cristiano I a viagem mas antes de desnortear mais uma vez Castela. Mas todos os ardis serviam para confundir a concorrncia castelhana, induzindo-a a que, mais para pescar bacalhau... seria para atingir os caminhos da ndia. Quem sabe (diriam os nossos vizinhos para os seus botes) se por Ocidente no seria o mais curto caminho para a ndia fabulosa, terra mtica do ouro e da prata, das prolas e pedrarias e ainda das especiarias, cujo valor real no andava longe do dos metais nobres. Para alm do mais os castelhanos no podiam deixar de conhecer a carta natica de Pizzigano, bem como estar ao par do af dos Portugueses no descobrir das ilhas espalhadas pelo Atlntico, que, alm do mais, representavam bases de apoio para futuras incurses navais. Paralelamente, os Reis Catlicos e os seus mais directos colaboradores conheciam igualmente a progresso dos descobrimentos ao longo das costas africanas, mormente aps dobrado o Cabo das Tormentas, porque Lisboa era ento um vespeiro de espies ao servio das naes marinheiras.

Entretanto morre o Africano, sucedendo-lhe seu filho o Principe Perfeito o verdadeiro arquitecto e artfice incansvel da odisseia dos Descobrimentos, preparada, na maior parte dos casos, dentro do maior secretismo, sobretudo no que concernia ao projecto do caminho maritimo para a ndia. Para concretizar esse propsito, para alm do sigilio, dispunha D. Joo II pelo menos de trs trunfos: primeiro a Junta de Cosmgrafos, presidida pelo bispo D. Diogo Ortiz, que no obstante a raz salamanquina mostrou exuberantemente ser Portugus por adopo, verdadeiramente faca-de-mato do monarca, que, entre muitos cargos, foi bispo de Tnger, em 1491, e capelo-mor da corte, inclundo no seu mnus confundir Castela, fazendo fluir das frinchas da Junta apenas o que convinha que se soubesse... Diogo Ortiz teve assim importantissimo papel na histria das Descobertas.

O padroado dos Descobrimentos havia sido atribudo, em exclusivo, a Portugal pelas bulas papais de Eugnio IV, e seus sucessores: Nicolau V, Martinho V, Calisto III e Sisto IV. A bula de Nicolau V (8 Janeiro 1454) por exemplo concede a todos os monarcas portugueses e seus sucessores, e ainda do Infante D. Henrique a soberania sobre todas as conquistas se frica e ilhas dos mares adjacentes (por isso disse D. Joo II o Colombo, quando o recebeu no seu regresso da Amrica, em 9 de Maro de 1493, "que lhe agradava muito a notcia, porque tudo o que havia descoberto por direito lhe pertencia".

At ento para Castela e Arago, os problemas ligados aos descobrimentos, se bem que existissem no dominio da navegao e conquista, encontravam-se de certo modo adormecidos. O que de momento mais lhe interessava eram as questes emergentes do independentismo galego da Confederao do Cantbrico (de Baiona de Frana Baiona de Espanha) e as reconquistadas provincias da Baixa Andaluzia (do Algarve ao estreito de Gibraltar). Porm a disputa iniciada com a posse das Canrias alterou esse “mdus vivendi”, agravado singularmente com a viagem de Colom pela circunstncia dos Reis Catlicos acharem que, embora os protocolos fossem favorveis a Portugal, entenderam, pelo facto de terem sido eles os armadores da expedio colombina, que as Antilhas passariam a ser deles. Por isso recorreram ao papa, na altura Alexandre VI, valenciano da famlia Borga e por sua origem muito propenso a favorecer o ponto de vista de Fernando e Isabel. Seno vejamos: a 3 de Maro de 1493 regressa Colombo Pennsula e em Abril foi recebido pelos reis em Barcelona e logo a 3 de Maio outorgava o papa as terras descobertas aos Reis Catlicos e passado um dia fazia acrescentar a clusula da separao dos dominios ibricos atravs de uma linha tirada de polo a polo a 100 lguas da mais ocidental das ilhas do arquiplago de Cabo Verde. Face a esta situao, uma vez perdido o exclusivo do senhorio dos mares, tratou D. Joo de assegurar uma repartio que mais conviesse a Portugal. Assim por saber j da existncia do Brasil - que viria a ser "oficialmente" descoberto sete anos depois por Alvares Cabral - a divisria proposta pela bula pontifcia ia subtrair-nos a maior parte das terras brasileiras, de todo indispensveis a garantir a posse de pontos de escala na derrota para a ndia, que obrigava a larga bordada para Oeste - a fim evitar os ventos gerais desfavorveis e as inconvenientes calmarias equatoriais - contornando as regies desses ventos e dessas calmas e seguir depois em frente para o cabo da Boa Esperana, dobrado por Bartolomeu Dias quatro anos antes.

Logrou xito D. Joo II: com a ajuda preciosa de D. Duarte Pacheco Pereira, seu embaixador extraordinrio, levou a causa de vencida com uma nova linha divisria, desta vez a 370 lguas de Cabo Verde. Tenazmente discutido em Simancas, no longe de Tordesilhas, o tratado acabou por ser elaborado nesta cidade, que lhe deu o nome, e assinado em Arvalo a 2 de Julho de 1494. Antes, porm, j D. Joo havia feito saltar outra carta da manga do balandrau: Colombo, que h quem afirme ter sido, ao fim e ao cabo, um agente secreto do monarca. Vale a pena contar a histria, at porque tambm ela, como as demais do presente bosquejo vai entroncar de alguma maneira com a do Fiel Amigo.

A verdadeira identidade de Cristvo Colom, certamente pseudnimo que Castela, masculinizando, mudou para Colomo - ainda hoje anda envolta em mistrio. Todavia, tudo parece agora apontar no sentido de ser portugus, nascido em Cuba do Alentejo, ou em Gnova, onde a me, Isabel Sciarra da Cmara, de ascendncia italiana, sobrinha de Salvador Gonalves Zarco, teria ido dar luz o fruto dos seus ilcitos amores com o infante D. Joo, duque de Beja e pai do futuro rei D. Manuel. Em Gnova o misterioso menino teria sido entregue a criar alde Susana Fontana Rossa, mulher do cardador e tecelo Domenico Colombo. Obscura teria sido a vida de Colombo at surgir em Portugal, em Agosto de 1476, dedicando-se vida comercial como agente de vendas de mercadores italianos. Contudo, pouco depois, por volta de 1479 ou 80, aparece casado com a filha de Bartolomeu Perestrelo, italiano de nascimento e portugus de adopo, primeiro capito donatrio de Porto Santo. Durante algum tempo, pelo menos at ao nascimento do filho Diogo, residiu na Madeira, entregue a administrar as empresas maritimas do sogro e aproveita o ensejo para acompanhar nos seus priplos as caravelas . Mas desde j se acrescente que o casamento com Filipa Moniz de Perestrelo s podia ter acontecido se Colom fosse aureolado de sangue azul, como de facto era, tanto por parte do pai como do tio-av.

Diz-nos Mascarenhas Barreto no seu livro "Colombo portugus - provas documentais" publicado em Julho de 1997, depois de se dar ao trabalho - com a colaborao do Dr. Manuel Luciano da Silva, natural de Vale de Cmbra e mdico director do centro mdico de Bristol, Rhode Island, Estados Unidos da Amrica, e, de sua esposa D. Silvia - de tentar descodificar a famosa sigla da assinatura de Colom, que pelo seu secretismo deu lugar ao longo do tempo s mais estranhas interpretaes, chegando concluso que o navegador se chamava afinal Salvador Fernandes Zarco (fig. 3). Pelos vistos, teria ido buscar o apelido de Colom aos pais adoptivos e o de Guerra (Cristbal Guerra) aposto em alguns documentos espanhois, nomeadamente no doc. 14 do arquivo de Simancas, publicado por Martin Fernandes, em 1852, seria uma corruptela de Sciarra, da me. Por outro lado, curioso que ao desembarcar, a 12 de Outubro de 1491, na primeira das Antilhas a baptize com o nome de S. Salvador e as duas seguintes com o de Fernandina e Isabel, a lembrar os reis seus protectores. E por ultimo, Cuba, ilha abordada pelo navegador na sua primeira viagem que, recorda irresistivelmente a terra que porventura lhe serviu de bero. Registe-se ainda, concluir, a obra do professor Rumeu D’Armas da Universidade de Madrid, intitulada "El portugus Cristbal Coln en Castilla", Madrid, 1982. Quanto aos italianos, esses porfiaram, e de que maneira em lig-lo ao apelido do tecelo de Gnova, talvez na mira de fabricar pressa um heroi, dado que, neste meio milnio, pelos vistos, pouco mais podiam averbar que os nomes Mussolini e Al Capone...

Fig.3
Monograma de Colombo in “Colombo Portugus - provas documentais”
Dr. mascarenhas Barreto - Jul.97

Aps o falecimento do filho, provavelmente em 1481, e do falecimento da mulher, porventura de parto, mas antes de 1485, Colom vem para o Continente, onde permanece 4 ou 5 anos, acompanhando as expedies das Descobertas, nomeadamente Guin, conforme o prprio testemunha no seu "Dirio da 1. viagem" s Antilhas e em vrios outros escritos. Todavia, antes de 1482, ou um pouco antes, teria peregrinado pela feitoria do Castelo de S. Jorge da Mina (fundada no ano anterior) e em 1485 estaria presente na Crte na altura em que o astrlago doutor Mestre Jos Vizinho (porventura nome cristo do judeu Mestre Moiss) que com Mestre Rodrigo e o Bispo Diogo Ortiz integravam a Junta dos Cosmgrafos referiu os resultados da medio e a latitude da Guin.

Foi sensivelmente por esta ocasio que se registou a audincia ou com o soberano ou com D. Diogo, em que Colombo - convencido ou embaindo Castela de modo a deixar livre o caminho da ndia - se propunha atingi-la pela contra costa do Atlntico. Mas a Corte desinteressou-se da empresa e Colom, mostrando-se ou fingindo-se agastado, vai propor o seu projecto (de certo, louvando-se em informaes obtidas de Antnio de Leme, estabelecido na Madeira desde 1483, possivelmente na sequncia da carta nutica de Pizzigano) aos Reis Catlicos, os quais, de certo desconfiados, levaram sete longos anos a dar-lhe despacho...

Finalmente, a 3 de Agosto de 1491, a frota levanta ferro de Rbida, no sul da Andaluzia e parte em direco s Canrias, onde permanece por um ms, e zarpa para Oeste, avistando terra em Outubro, que, de imediato, crisma de Antilhas, suposto ser a Antilia da carta de Pizzigano...

A 25 de Outubro de 1495 morre em Alvor, contando apenas 40 anos, D. Joo II, porventura o maior dos soberanos portugueses e ao saber do seu passamento no tiveram os Reis Catlicos palavras seno para dizer: "morreu o Homem!". Curtas palavras para lhe definir o epitfio que o consagra verdadeiramente patrimnio da Humanidade. Rei morto, rei posto: sobe ao trono o Venturoso. Completara-se a abertura do Mundo mas a gesta dos Corte-Reais continua ainda em demanda do fiel amigo.

De facto, no se ficou por aqui a legenda de Joo Vaz: tanto ele como os filhos procuraram de vrias formas, ir sempre mais alm, ainda que com sorte, por vezes, madrasta, como foi efectivamente para dois dos seus filhos: Gaspar, o mais novo, e o secundognito Miguel, j que o primognito, Vasco Anes, nado e criado em Lisboa, nunca chegou a deslocar-se sequer aos Aores, entregando os bens administrao de Gaspar a fim de desempenhar o cargo de vedor ou intendente de D. Manuel. No sendo pois homem de mar, mesmo assim, quando do desaparecimento dos irmos, tomou a resoluo de, tambm sua custa, ir procur-los. Contudo o monarca desencorajou-o da empresa por a ter j por escusada.

De Gaspar sabe-se ter efectuado, nos fins do sculo, trs viagens, pelo menos, de descobrimento rumo ao Ocidente, por sua prpria iniciativa e sua custa, concedendo-lhe ento D. Manuel, e aos seus descendentes, o governo de todas as terras que descobrisse. No se conhecem os resultados dessa primeira viagem, mas a segunda expedio, conta Damio de Gis, teria partido de Lisboa no comeo do Vero de 1500 (embora Antnio Galvo opine ter zarpado da Terceira com dois navios armados sua custa, o que no certo, dado que Miguel concorreu com metade das despesas da viagem) acrescentando que, a Noroeste, havia "uma terra que, por ser muito fresca e de grandes arvoredos, como so todas as que jazem para aquela banda, lhe ps o nome de "Terra Verde" (j outorgado pelo pai Joo Vaz, como referimos).

Logo depois do regresso, Gaspar preparou a sua terceira expedio, que partiu de Lisboa, em trs navios, em Janeiro de 1501. A 8 de Outubro um dos barcos estava de volta, informando ter-se encontrado, a 2.000 milhas, entre o Noroeste e Oeste, uma terra incgnita com 600 a 700 milhas de costa, que se prolongava por outra, descoberta no ano anterior e que no puderam atingir por causa dos gelos. Trs dias depois surgia no Tejo um segundo navio, que no era em que viajava Gaspar, cujo comandante - no relato do italiano Alberto Cantino, ao tempo residente em Lisboa - informou que ao fim de cinco meses de derrota, haviam encontrado enormes massas de gelo e depois mar gelado, que os impediu de seguir em frente, rumando a Noroeste e a Oeste meses depois, descoberto uma grande terra com importantes rios. Quanto ao terceiro navio nunca mais houve notcia dele.

Harrisse, estudioso francs, ainda que nado nos Estados Unidos, dedicado investigao histrico-geogrfica sobre a descoberta do Novo-Mundo, diz, debruando-se sobre o clebre planisfrio de Cantino: que nessa terceira e ultima viagem Gaspar teria percorrido toda a orla meridional da Terra Nova e guinando ao norte chegado ao Cabo Ray. Depois, prosseguindo ao longo da margem ocidental da ilha, teria alcanado o estreito de Belle-Isle e, de seguida, acompanhando o contorno meridional da pennsula do Labrador (assim conhecida por ter sido reconhecida por ter sido explorada a extremo por Joo Fernandes Labrador e Pedro de Barcelos, seu imediato), e demandando o golfo de S. Loureno e, retrocedendo ao Atlntico, naufragar por fim, no estreito de Davis ou na Baia de Hudson. cerca da segunda viagem, o historiador sustenta que a aco de Gaspar ter-se-ia desenvolvido possivelmente a correr com a costa Sueste do Labrador e na parte mais setentrional da Terra Nova. Quanto terceira viagem, Ernesto de Vasconcelos de opinio que a explorao da Terra dos Bacalhaus se iniciou pelo extremo meridional da Gronelndia, e, depois de dobrar o cabo Farewell, seguiu a costa at ao estreito de Davis at Disko Ray, onde os gelos obrigaram os exploradores a regressarem ao cabo Mugford, no nordeste do Labrador e, da, atingindo o estreito de Belle Isle, limitante da ilha da Terra Nova, e acompanhar a costa at Placentia no extremo sul. De l teria Gaspar despachado para Lisboa os outros dois barcos. Foi o fim!... Relativamente mais afortunado seria Miguel. Alto dignatrio, ao tempo, da Corte de D. Manuel, partiu, por deciso do monarca, de longada at Amrica do Norte em busca do irmo. Segundo Damio de Gois, teria zarpado de Lisboa "aos 10 dias do ms de Maio de 1502, com duas naus sem nunca haver nova" da nau de Miguel. Sentindo profundamente a morte dos dois irmos, D. Manuel ainda despachou, no ano seguinte duas naus em sua procura, porm sem xito. E decidiu que aquelas terras passariam a chamar-se "dos Corte-Reais". Segundo ainda Antnio Galvo, as naus teriam atingido a Amrica, num ponto "com muitos rios e abras (pequenas baias ou enseadas) entrando cada um pela sua com regimento que se ajuntassem todas at 20 dias do ms de Agosto, assim foi e vendo que no vinha Miguel no prazo, nem depois algum tempo, se tornaram ao reino, sem nunca mais dele se saber nova”. Morreu o homem mas deixou fama e marca imorredoira na sua passagem na pedra Dighton, situada na foz do rio Tanton, em Berkley, estado de Massachusetts, no longe de Providence e perto de Cap Cod, ao norte de Nova York.

A famosa pedra - hoje guarda com outros objectos relacionados com o descobrimento da Amrica (saliente-se que a costa da baixa California e da California foram descobertas tambm por um portugus: Cabrilho, ainda que ao servio da Espanha, efemride que, diga-se de passagem todos ao anos ruidosamente comemorada em San-Diego) no Dighton Rock Museum, tem gravada, alm de trs escudos de Portugal, quatro cruzes da Ordem de Cristo, a data de 1511, a inscrio latina "V. DEI HIC DUX IND." e o nome MIGVEL CORTEREAL, dela existindo uma rplica, em fibra de vidro, na Praa do Imprio de Lisboa, perto da entrada do Museu da Marinha). A fazer f da inscrio, quase uma dcada depois de Miguel zarpar de Lisboa, ainda era vivo e, presume-se, so e escorreito, e, segundo a lenda, acabado por aclimatar-se, constituindo familia e eleito chefe de cl aborgene, o que, alis, se pode deduzir da inscrio.

Outros, alm dos Corte-Reais e Diogo de Teive, j referido, ou os que estiveram na origem da carta de 1424, jornadearam pelas terras dos bacalhaus. Entre outros, citam-se por exemplo o vians Joo Alvares Fagundes, que depois de chegar ao que hoje Florida (que de espao visitou) rumou ao Norte, costeando a costa americana, alcanando a Terra Nova e a costa do Labrador. Em recompensa veio a obter o senhorio do Banco Grande da Terra dos Corte-Reais para o exercicio da pesca do bacalhau. Mais minuciosa porm, seria a explorao que fez de ponta a ponta, entre 1492 a 1495. De Fernandes Labrador e de Pedro de Barcelos se falou, restando acrescentar que nas suas mudanas alcanou tambm a baa de Hudson.

Em suma, fomos ns, portugueses, os primeiros a pisar a terra do Novo Mundo e os primeiros tambm a aproar Terra Nova. Antes de ns s os viquingues o podiam ter feito, todavia os seus vestigios na terra dos Bacalhaus so nulos, ao passo que tanto os dos Corte-Reais, por exemplo, so mais que muitos e visiveis, no apenas na celebrada Pedra de Dighton, com numerosas denominaes geogrficas que, com corruptela ou sem ela, pontilham as cartas maritimas da regio. So, na verdade mais de uma centena os topnimos portugueses existentes portulanos da costa atlntica dos Estados Unidos e Canad, como por exemplo, alm de Labrador e cabo Raso (Cap Race), a baas da da Conceio (Conception Bay) e da Boavista (Bonavista Bay) (Cfr. a este respeito, memria sobre a Pesca do Bacalhau, de Jacob Pereira de Azaruja (Lisboa, 1835). De resto, segundo refere Joo Verasini, um italiano ao servio da Frana - no registo da viagem que fez Terra Nova, publicado em 1525, quando os Normandos l chegaram em 1504 j encontraram instalados os Portugueses firmemente estabelecidos nas costas da Grande Ilhavo, juntamente com gente de Viana. Ao que parece de parceria com pescadores da Terceira, os Ilhavos e os Minhotos fundaram a um grande porto de armamento e uma feitoria para lhes servir de apoio.

J referimos que a partir do reinado de D. Dinis at perda da independncia, o governo do reino, continuou infatigavelmente a dispensar total apoio s pescas longinquas, por ver nelas um alfbre de pilotos das Descobertas, uma verdadeira escola natica ao servio do projecto eminentemente nacional da abertura do mundo. Nesse intuito, D. Sebastio, no obstante o seu curto trnsito sobre a terra, vai mais longe: confere s frotas ocupadas nas operaes da pesca longinqua um regimento no sentido de lhes dar uma orgnica prpria, enquadrando-as e subordinando-as a um comando nico.

No tardou, porm, que soobrem as estruturas laboriosamente erguidas ao longo desses reinados em consequncia da guerra desencadeada pela Espanha dos Filipes contra a Inglaterra e, acessoriamente, contra os Pases Baixos. Outrossim, no que diz respeito a Aveiro, as vicissitudes da barra, a partir do momento em que inexoravelmente segue para sul da Senhora das Areias, hoje S. Jacinto, refletem-se, negativamente, na constituio da nossa frota pesqueira, a qual antes de 1585, contava com mais de 60% das caravelas que demandavam os Bancos.

Mas desgraa maior foi, de facto, a destruio da Invencivel Armada, no mar da Mancha, em 29 de Junho de 1588, com a ajuda de temerosa tempestade, pelo flibusteiro - nobilitado e feito almirante por Isabel I de Inglaterra - Francis Drake. Como sabido a armada filipina, que saiu a barra de Lisboa a 17 de Janeiro do mesmo ano, era composta por uma chusma de embarcaes portuguesas e espanholas de todos os tipos e feitios, no s de guerra, mas tambm mercantes e de pesca, em suma, de todas as naus de onde se pudesse abrir fogo sobre o inimigo, inclusiv de galees e caravelas.

Sem barcos e sem homens, deixam os Bancos at cerca de 1835, ou seja uma ausncia superior a duas centrias, ao longo das quais as tradicionais virtualidades da nossa gente do mar tinham em parte desaparecido. A deslocao austral da barra condicionava o marasmo; instala-se o calvrio da ria: a produo de sal esvai-se e a frota pesqueira definha ainda mais. O cordo lagunar, que em 1584 pairava onde hoje se perfila a Costa Nova, sessenta anos depois atingia a Vagueira para, volvidos mais quarenta, alcanar a Quinta do Ingls e, em 1756, Portomar, j nos plainos dunares de Mira.

Compreende que, paralelamente ao avano das barras, decai a fora viva das mars e, da, o arrasto dos depsitos aluvionares acumulados nos canais efluentes da laguna, dificultando ou impedindo mesmo, a entrada da gua salgada, alfa e omega da produo de sal. As barras vo gradualmente deixando de ser de boa entrada, o comrcio e a pesca fenecem e s ressurgem, ainda que mal, nos alvores do sec. XIX, mais concretamente a partir de 3 de Maro de 1808, com a abertura pelo homen da actual Barra Nova, sob os auspcios do eng. Lus Gomes de Carvalho. Mas nem as facilidades concedidas, em 1842, pelos Ingleses, na Terra Nova, nem pelos Franceses, sete anos depois, em Saint Pierre e Miquellon, consegem ultrapassar por inteiro a apatia.

certo que algumas tentativas se desenham no sentido de vencer o marasmo, porm a principio sem xito palpvel. Todavia, os sucessivos insucessos tiveram, ao menos, o mrito de irem preparando novos armadores, novos capites - por vezes simbioses de ambas as espcies - e de novos tripulantes para as campanhas que viriam a eclodir com o despontar do sculo.

Pouco a pouco, o armamento volta a Aveiro: em 1903 com um navio de 177 toneladas; em 1904 os navios j eram sete, perfazendo um total de 1137 toneladas de arqueao; em 1917 o efectivo decresce, acompanhando o periodo de recesso da 1 Guerra Mundial, para trs unidades num total de 597 toneladas, mas, trs anos volvidos, sobe para onze e 2312 toneladas e em 1929 para vinte e duas e 5705 toneladas. Contudo, em 1932 volta a registar-se um decrscimo - so onze, com 2822 toneladas, os barcos utilizados na pesca do bacalhau, mas volta a crescer o nmero e em 1939 so j dezanove com 8075 toneladas de arqueadura.

Em 1930, o lugre "Santa Mafalda" da Empresa de Pesca de Aveiro (E.P.A.) zarpa a pescar nas costas da Gronelndia e da em diante a pesca bacalhoeira passa a exercer-se tanto na Terra Nova como em outros novos pesqueiros, e no tarda o advento do motor para manobra dos ferros e a turbina, em 1933, para locomover os lugres e trs anos depois o primeiro arrasto - o "Santa Joana", da E.P.A. e, decorridos mais quatro, o "Santa Princesa" e o "Santa Mafalda", ambos tambm da E.P.A. Seria ocioso referir, aqui e agora, por mido, os homens e os factos que balisaram a asceno. Nem esse o propsito deste eptome da histria do "fiel amigo". Uns e outros, por demasiado prximos no tempo, cedo, talvez, para os trazer a lume. Na verdade, j incerto autor do "Sircides" do Antigo Testamento insistia que "s com a morte so revelados os feitos do homem". Quanto muito e no s por isso, quem h que ser lembrado o comandante Tenreiro, que morreu, de certo modo, a tempo de no assistir ao desmantelar de uma obra de que foi protagonista, mas que outros, unidos na mesma linha de pensamento e aco, ajudaram a erguer e que agora vegeta - perdoai o negro humor - em guas de bacalhau...

Desta recente histria melhor no falar, trazendo colao ver correr os politicos desfilada, de braos abertos, a apanhar o comboio com medo de o perder, para o chamado Clube dos Ricos - sem cuidar, ao menos, de procurar alternativa (e talvez houvesse...) - com as consequncias que se conhecem e mais aquelas que porventura estaro para vir.

Tudo visto, tempo de concluir este conto, que, ainda que dado letra de forma no Natal neste ano da graa de 97, no propriamente, na falta de fagueiro eplogo, um conto de Natal, por coincidncia, na portentosa Gafanha da Nazar, personagem, tambm ela, e em larga medida, da narrao do Amigo Fiel, pois graas a ele cresceu depressa e bem: do parto telrico, sado do caos das guas e das lamas, vai talvez para trs centos de anos, surgiu esta bere terra dos bacalhoeiros.

Pese esta feliz circunstncia, pese ainda a sua ntima relao com os Portugueses, vai talvez para um milnio, em que a fidelidade do Fiel Amigo se manifesta, como produto do gnio portugus, no quadro da gastronomia e, mais ainda, se revela como expresso do mesmo talento - o "talent de bien faire" da divisa do Infante - no panorama dos Descobrimentos, o que, tudo somado, fazem do bacalhau verdadeiro patrimnio nacional. No podemos dar feliz remate histria: terminado o ciclo do Imprio, acaba tambm o do bacalhau, que de novo volta nossa mesa a alegrar as Consoadas atravs dos homens vindos do frio, os mesmos, afinal, que o trouxeram outrora at ns no arrebal da nacionalidade.

Gafanha da Nazar, Dezembro de 1997

Fernando Marques
(Mdico Veterinrio)

Criado em: 2002-03-02 / Actualizado em: